Alguns textos

A borboleta que temia os espinhos

 

Depois de ferir as asas, após um voo cortante, a borboleta evitou chegar perto das rosas, temendo os espinhos. Vi-as de longe nos coloridos jardins que se espalhavam na paisagem. As rosas pareciam bonitas e realmente sentia vontade de observá-las de perto de sentir o aroma sagrado e ver o colorido tão lindo das folhagens do roseiral, mas logo desistia quando lembrava da dor que o espinho causaria. De tanto ficar escondida, começou a sofrer a ameaça de predadores. Cobras, pássaros e lagartos a observavam ávidos por alimento. A borboleta não sabia o que fazer. Não poderia se distrair pois seria devorada por alguns desses terríveis inimigos, mas não queria voar e ter que se bater nos espinhos, ferir suas asas, sentir dor. De cima de um galho, sentia o cheiro das flores que a convidavam para visitar o jardim. O aroma trazia lembranças dos seus tempos de lagarta em que ainda vivia se arrastando pelas folhas quando muitas vezes, sentia bem de perto o perfume das rosas. As lembranças traziam saudade de um tempo que tinha passado e que fez com que a pequena borboleta tivesse que aprender a lidar com a nova vida de voos no céu infinito. Mas lidar com essa nova vida era aprender novas coisas, era não se contentar em se arrastar pelas folhas, era ter que lidar com as asas e alçar voo no espaço desconhecido. Mesmo assim, ainda sentia falta do seu tempo de lagarta. Das formigas com que conversava ao passear pelas folhas, de subir e descer se arrastando pelos galhos. A saudade também doía, talvez mais do que a lembrança da ferida nos espinhos. Mas agora era borboleta e não podia negar a sua condição: tinha asas, precisava aprender a alçar voos e a explorar paisagens que nunca tinha visto. De cima do galho onde estava, viu as flores ao longe e sentiu uma vontade incontrolável de vê-las bem de perto. Precisava sentir de novo bem de pertinho o aroma que tanto amava e, para isso, não poderia mais ficar parada ali, escondida. Pensou que poderia voar depressa e chegando bem perto das flores, sentiria o aroma sagrado e logo voltaria ao galho onde se escondia. Abriu as asas e, algo lá dentro dela a levou a encher-se de coragem. Se conseguisse voar depressa, logo alcançaria a primeira rosa Abrindo-se em vôos, perdeu-se em meio ao colorido, e à beleza daquele jardim. Inebriou-se com o cheiro doce das flores que se abriam. Esquecendo dos espinhos, não se lembrou de voar alto no horizonte, e ainda se feriu ao passar bem perto de uma rosa amarela. E dia após dia voava e voltava para o esconderijo do galho. Mas chegou o tempo em que percebeu que não podia mais se esconder. Exposta a perigos de ataques dos predadores, e movida pela vontade de voar perto das flores coloridas, pensou que mesmo que se ferisse um pouco, nos espinhos, valeria a pena ficar perto das flores. O aroma do roseiral e as paisagens que aprendeu a apreciar valiam mais do que o medo das feridas. Com o tempo, aprendeu a se esquivar dos espinhos e a superá-los com vôos mais cuidadosos, e descobriu que também era parte da paisagem... Foi aí que percebeu que não podia mais viver sem visitar jardins e sentir o cheiro das rosas.

 

10/01/2017

 

 

 

 

 

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